terça-feira, 22 de abril de 2008

Não dou, não troco nem vendo meu Fusca


Ninguém sabe ao certo explicar por que ele continua ocupando lugar de destaque no coração de quem o possui - e de quem quer possuí-lo. Mas o fato é que o bom e velho Fusca, mesmo depois de decretada o fim de sua fabricação no país, em 1996, ainda é o queridinho entre tantos e cada vez mais modernos automóveis que circulam pelas ruas da cidade.

Para se ter uma idéia, Rio Branco possui pelo menos uma oficina exclusiva para a recuperação dos “Herbies”. Conhecida como Cemitério dos Fuscas, fica localizada na Estrada da Floresta e é comandada pelo mecânico Damião Macedo da Silva. No pátio, podem ser identificados quase duas dezenas de carcaças e esqueletos do veículo.

Por cerca de R$ 2 mil, um aficionado (ou necessitado) pode sair de lá com um Fusca para chamar de seu. “Aqui, uns morrem para dar vida a outros. Eu compro as carcaças, trago e reformo. Adoro mexer com Fusca”, diz Damião. Muitos clientes também deixam seu Volkswagen nas mãos dele para uma recauchutagem.

Ele conta que começou a mexer com Fusca aos 10 anos de idade, ajudando o pai, e criou amor pelo carro. Hoje, leva cerca de 30 dias para fazer uma reforma geral - com tudo a que se tem direito, até a pintura. “Um cliente me fez pintar o dele de preto-fosco. Foi a cor mais horrível que eu já vi”, lembra.

Baixo custo - O mecânico explica que uma das razões da paixão por esse automóvel é o baixo custo da manutenção. Apesar de não ser mais fabricado pelas montadoras, as peças, que são baratas, podem ser encontradas com facilidade “em todo canto”. “Além disso, o Fusca é um carro que tem durabilidade. Lá pra fora, quem tem um Fusca não troca por um Cross Fox”, afirma.

Dois tipos de consumidor

Mireily Carvalho, gerente de vendas da concessionária Volkswagen em Rio Branco, aponta que existem dois tipos de consumidores: os apaixonados e os que precisam de transporte. “Antes, as pessoas compravam o Fusca por necessidade. Agora, muita gente compra por paixão, pela originalidade dele”, comenta ela.

New Beetle – O amor pelo Herbie é tamanho que a Volks reeditou em 1998 um modelo de luxo, porém com as formas originais consagradas: o New Beetle, que em português significa Novo Besouro - não por acaso, um dos mais famosos apelidos do Fusca mundo afora (veja quadro).

“Esse já é um modelo importado, cotado em dólar. Quem compra, compra pela paixão, status e exclusividade”, diz Mireily. Em Rio Branco, um New Beetle custa entre R$ 67 mil e R$ 74 mil e vem equipado com banco de couro, direção hidráulica, ar-condicionado, air bags, entre outros mimos que o irmão pobre não oferece.

“É tão feio que você se enamora por ele”

Colecionador de carros antigos, o assessor jurídico do Tribunal de Contas do Estado Euclides Cavalcante Bastos admite ter um carinho especial pelos dois Fuscas que possui em sua garagem: um modelo Baja vermelho, de 1975, e um modelo clássico, de 1974.

“Quando eu era mais jovem, sempre quis ter um e nunca tive. Não sei explicar ao certo por que gosto tanto, acho que pela própria origem dele, que foi utilizado na Segunda Guerra Mundial. Ele é tão feio que você se enamora”, brinca. Ele relata que muitas vezes já foi resgatado por um de seus ‘besouros’ quando o passeio com qualquer outra de suas relíquias o deixava na mão. Sem contar os inúmeros assédios que recebe para vender seu Baja.

“Não vendo. Para mim, eles não têm valor comercial, só afetivo”, avisa. Indagado sobre o que seu Fusca diria se falasse, Bastos ri: “Tem tanta história, que é melhor nem dizer. Ele iria me entregar. Mas, com certeza, também iria dizer: ‘Não me abandone’”.

“Quando me fazem proposta, eu corto logo a conversa”

O preparador físico Afonso Alves já perdeu as contas de quantas vezes foi parado na rua por pessoas interessadas em seu Fusca prata, que possui há 13 anos. O carro chama atenção pelo bom estado de conservação e mais ainda pelos acessórios que ele próprio fabricou e apelidou de “frescurites”. Além, é claro, de comodidades como alarme, trava e vidro elétrico. O motor é original.

“Tirei esse carro num consórcio e quando fui contemplado, ele já tinha saído de linha. Tive uma briga grande com a concessionária, porque eles queriam me entregar o Gol e eu não queria. Queria era o Fusca”, lembra Alves. “As pessoas me zoavam, não entendiam como eu, em vez de pegar um carro mais novo, preferi o que tinha saído de linha.”

Agora, que a febre pelo carro mais popular da Volks voltou com força total, as zoações deram lugar ao assédio. O preparador físico chegou a receber proposta em plena balsa do Rio Madeira por um marido desesperado com os apelos da mulher, que havia se apaixonado pelo carro.

“Não vendo de jeito nenhum. Quando me fazem proposta, eu corto logo a conversa”, garante. Amor é assim mesmo. Não se explica. Ainda mais no caso dele, que já teve dois carros antes desse. Todos dois eram Fusca.

Apelidos

Pelo mundo afora, o Fusca ganhou diversos apelidos. O próprio nome Fusca é um deles que, de tão popular, acabou sendo batizado oficialmente com este título aqui no Brasil. Confira, a seguir.

Käfer ou Kugelporsche (Porsche-bola) - Alemanha

Sedan e depois Fusca (ou Fuca/Fuque) - Brasil

Coccinelle - França

Skathári (besouro) ou Skaravéos (escaravelho) - Grécia

Maggiolino - Itália

Vocho - México

Kupla (bolha) - Finlândia

Kodok (sapo) - Indonésia

Garbus (corcunda) - Polônia

Brouk - República Checa

Carocha - Portugal

Escarabajo (escaravelho) - Espanha e parte da América Latina

Hipushit - Israel

Kostenurka (tartaruga) - Bulgária

Ag-ru-ga - Iraque

Boble (bolha) - Noruega

Buba - Croácia

Bug ou Beetle (besouro) - Estados Unidos

Broscalanu’ ou Broscuţa (sapinho) - Romênia

Boblen (bolha) - Dinamarca

Peta (tartaruga) - Bolívia

Cepillo (Vassoura) - República Dominicana

Volky - Porto Rico

Cucaracha ou Cucarachita (Barata e Baratinha) - Guatemala

Weevil - Canadá

Foxi - Paquistão

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